As Questões de Winogrand
John Szarkowski, autor de uma monografia sobre o fotógrafo novaiorquino Garry Winogrand, afirmou que as imagens deste são verdadeiras declarações sobre as “intrínsecas qualidades prejudiciais” da descrição fotográfica. Para compreendermos devidamente esta afirmação, é preciso ter em mente o que exatamente são estes “prejuízos” – tarefa que é facilitada pela provavelmente mais famosa declaração do próprio Winogrand, segundo a qual ele fotografava as coisas para saber como elas pareceriam depois de fotografadas. Isso porque, como sabemos, a fotografia seleciona, isola, recorta; pode destacar e descontextualizar; pode afirmar e reinterpretar – e o que há por trás disso são crenças e valores, ou motivações políticas e ideológicas. As referidas “qualidades prejudiciais intrínsecas” dizem respeito justamente a esta defasagem que há entre o registro fotográfico e o real, questão sobre a qual Winogrand se debruçou e cuja investigação constitui o cerne de sua obra.

Não se deve julgar, é claro, que possa haver uma prática fotográfica totalmente neutra, desprovida de qualquer intencionalidade – e, por conseguinte, livre de quaisquer valores ou determinações ideológicas. Mas Winogrand tencionou aproximar-se, a seu modo, deste ideal; para tanto, permitiu que seu olhar se mantivesse na superfície, entregue às contingências, permitindo aos poucos que estas fossem cada vez mais presentes em suas imagens. Há aí uma boa dose de risco; e, de fato, não foram poucos os críticos que condenaram o que julgaram um excesso de trivialidades e de cenas banais em suas fotografias. A verdadeira questão, todavia, não é esta; o que deve ser perguntado é precisamente o que, afinal, determina aquilo que consideramos ou não como sendo uma banalidade; o que nos leva a fazer estas valorações que priorizam alguns instantes em detrimento de outros.
É neste ponto que a fotografia de Winogrand mostra seu maior valor. Se sua obra é ainda pouco conhecida, isso ocorre, ao menos em parte, porque sua proposta estética não é facilmente compreensível. Trata-se de um fotógrafo que ousa questionar as mais profundas camadas do fotojornalismo ao problematizar nossos valores e critérios, a partir dos quais julgamos determinados momentos mais valiosos que outros. É como se, em cada uma de suas imagens, denunciasse a nós mesmos que, enquanto nos preocupamos procurando aqui e ali os instantes que consideramos mais raros, há uma infinidade de outros momentos que, se são menos incomuns que aqueles, não necessariamente perdem por isso sua importância; e que, se relativizarmos um pouco o nosso olhar, veremos o quanto o real é sempre mais rico do que o segmento que é possível capturar em uma foto.

A obra de Winogrand pode ter suas limitações – se comparada com Cartier-Bresson, parece rude e brutal; se comparada com William Klein, parece gratuita e seca; se comparada com Robert Frank, parece passiva e acrítica. No entanto, se as fotos de Winogrand são à primeira vista menos apaixonantes, são por outro lado a concretização de uma proposta difícil e corajosa – e que, precisamente por esta particularidade, merecem ser observadas com especial atenção.
[versão revisada de texto originalmente publicado em janeiro de 2004, no Fotosite. Imagens: Los Angeles, California, 1969; Austin, Texas, 1974]







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