Sobre o niilismo: Suehiro Maruo
Há um problema fundamental na leitura da estética de Suehiro Maruo a partir da clave batailliana: o fato de que a exigência do sagrado e a superação da individualidade são elementos ausentes da obra do artista japonês. Do mesmo modo, como aproximá-la dos escritos do Marquês de Sade, que tão intensamente dialogavam com a mentalidade Iluminista, por vias inteiramente ausentes das histórias de Maruo? Isso não quer dizer, evidentemente, que os mencionados autores − entre outros − não tenham influenciado a obra do artista japonês; com efeito, não faltam nítidas referências que indiciam essa influência, sem que isso implique que essas articulações ultrapassem a superfície das narrativas. Por outro lado, questionar a imediatidade desses vínculos não implica afirmar que não haja questionamentos relevantes na obra de Maruo; o que me parece necessário é que se renuncie à busca de improcedentes referências (o que costumeiramente é feito a fim de se "legitimar" o potencial ofensivo do artista japonês), para que se reconheça que a sua obra basta a si mesma.
É justamente na gratuidade perceptível na obra de Suehiro Maruo que, a meu ver, está o que apresenta de mais notável. A vontade de transgressão, explicitamente manifesta no virtuosístico tratamento gráfico que o artista dispensa às suas narrativas, parece-me denunciar precisamente um hedonismo que não se furta a celebrar um mundo sem deuses e sem valores. O fato de um de seus álbuns denominar-se Paraíso tem um sentido fortemente irônico − sobretudo porque, nas histórias de Maruo, os mais castigados são precisamente aqueles que mais intensamente se apegam às ilusões. Visto que o mundo que nelas encontramos é francamente niilista, sem que haja qualquer pretensão de ocultá-lo sob mensagens moralizantes ou promessas de redenção, restam apenas duas possibilidades de existência: buscar construir valores sobre o nada − tarefa sempre fadada ao fracasso − ou abrir-se para o vazio − e tornar-se, voluntariamente, parte do caos.
É justamente na gratuidade perceptível na obra de Suehiro Maruo que, a meu ver, está o que apresenta de mais notável. A vontade de transgressão, explicitamente manifesta no virtuosístico tratamento gráfico que o artista dispensa às suas narrativas, parece-me denunciar precisamente um hedonismo que não se furta a celebrar um mundo sem deuses e sem valores. O fato de um de seus álbuns denominar-se Paraíso tem um sentido fortemente irônico − sobretudo porque, nas histórias de Maruo, os mais castigados são precisamente aqueles que mais intensamente se apegam às ilusões. Visto que o mundo que nelas encontramos é francamente niilista, sem que haja qualquer pretensão de ocultá-lo sob mensagens moralizantes ou promessas de redenção, restam apenas duas possibilidades de existência: buscar construir valores sobre o nada − tarefa sempre fadada ao fracasso − ou abrir-se para o vazio − e tornar-se, voluntariamente, parte do caos.
À pergunta que tantos fazem − se há um sentido profundo na obra de Suehiro Maruo −, é afinal possível responder afirmativamente: se levamos em conta que o que busca o homem é construir uma ordem racional sobre o caos, naturalizando-o no processo de construção do cotidiano, percebemos que o artista japonês não se furta a denunciar a precariedade dessa tentativa. Por outro lado, ao radicalizar a crítica à razão e à moral, essa mesma obra revela o quanto necessitamos delas, ainda que apenas para nos protegermos da destruição a que estaríamos condenados caso as abandonássemos de modo definitivo. Mais do que nunca, na obra de Suehiro Maruo se revela verdadeira a frase atribuída a Hobbes, mas de fato bastante anterior ao autor do "Leviatã": homo homini lupus − o homem é o lobo do homem.







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