17.4.11

Para uma necropsia do leitor: "dissecando" um soneto de Henrique Castriciano (I)

O potiguar Henrique Castriciano de Sousa (Macaíba, 1874 - Natal, 1947) assina o poema de que aqui apresentamos uma leitura. Menos conhecido como escritor que sua irmã Auta de Sousa, lembrado sobretudo por sua carreira política e por suas iniciativas pedagógicas no Rio Grande do Norte, Henrique Castriciano transitou entre diversas estéticas literárias, porventura alcançando resultados notáveis; é o caso desse soneto, produto de sua passagem pelo decadentismo.


Monólogo de um bisturi

“Primeiro o coração. Rasguemo-lo. Suponho
Que esta mulher amou: tudo está indicando
Que morreu por alguém, este ser miserando,
Misto de Treva e Sol, de Maldade e de Sonho.

Isto não me comove: adiante! Risonho
Fere, nevado gume! e, ferindo e cortando,
Aço, mostra que tudo é lama e nada, quando
Sobre os homens desaba o Destino medonho...

Fere esse braço grego! E as pomas cor de neve!
E as linhas senhoris que a pena não descreve!
E as delicadas mãos que o pó vai dissolver

Mas poupa o ventre nu, onde repousa um feto;
Por que hás de macular o sono fundo e quieto
Desse verme feliz que morreu sem nascer?”


A primeira questão que suscita o soneto de Castriciano é a seguinte: o que significa esse título, “Monólogo de um bisturi”, que se apresenta à primeira vista como algo absurdo? Não temos ainda os recursos necessários para dar conta dessa pergunta, razão pela qual será preciso abandoná-la provisoriamente. Passemos, portanto, à leitura do poema, a fim de buscar os elementos necessários para que alcancemos a desejada resposta.

O primeiro verso, alexandrino (metro que será mantido até o fim do poema), apresenta uma notável solução: sendo a cesura masculina, o hemistíquio inicial coincide com a frase “Primeiro o coração”, que suscita no leitor um estado de expectação – o que se quer dizer com isso? A resposta virá logo a seguir: trata-se, por assim dizer, do anúncio de um método necrópsico. Há alguém que aqui fala – o que se torna explícito tanto pelo uso das aspas no início do verso quanto pelo título do soneto, conquanto a estranheza em se atribuir a fala a um objeto persista –, um alguém que descreve minuciosamente o seu procedimento: primeiro retira, supostamente de algum corpo, o coração; a seguir, rasga o órgão, mórbido gesto cuja finalidade ainda desconhecemos. O verso a seguir traz alguns indícios de respostas: sabemos que o coração pertenceu a uma mulher, e que o exame de seu interior revela um estado emocional particular (novamente, assoma o cuidado formal: também essas duas informações encontram-se no primeiro hemistíquio – “Que esta mulher amou”). Perceba-se o improvável salto do orgânico para o emocional, por meio do qual se chega à percepção do estado emocional da mulher através do exame da estrutura física do coração. Segundo o terceiro verso, a mulher “morreu por alguém”; nesse verso e no seguinte, ela é descrita como um “ser miserando”, formado “de Treva e Sol, de Maldade e de Sonho”. Se os dois primeiros elementos apenas sugerem uma síntese genérica de elementos contrários, os dois últimos remetem a temas muito presentes nas estéticas decadentista e simbolista contemporâneas de Henrique Castriciano. [continua]

imagem: "Tete de femme endormie", Odilon Redon (1840-1916)