O America agoniza
Que não se creia que a crise no America é algo recente. Seu princípio pode ser rastreado até 1987, aquele ano tão decisivo para os rumos do futebol brasileiro. Desde o início do Campeonato Brasileiro, em 1974, até o ano de 1986, o America sempre apresentara times competitivos: para que se tenha uma noção disso, basta levar em conta que raramente o time frequentava a parte inferior da tabela do Campeonato Brasileiro; uma consulta às tabelas com as classificações finais demonstra que era comum o America terminar o campeonato melhor posicionado do que algum dos outros “grandes” cariocas – Botafogo, Fluminense, Vasco e Flamengo. Em 1986, o America alcançou sua melhor classificação na história: chegou ao 3° lugar, depois de dar trabalho para o favorito São Paulo nas semifinais (0x1, no Morumbi; 1x1, no Maracanã), sendo o melhor time carioca naquele campeonato – o que decerto anunciava que o time chegaria forte no ano seguinte. Entretanto, a cartolagem entrou em campo.Relembremos a história, para os que não a conhecem. Em crise financeira, a CBF anunciou que não organizaria o campeonato de 1987; treze clubes brasileiros (entre eles, os quatro “grandes” do Rio) uniram-se para formar o chamado Clube dos 13, entidade que organizou a Copa União (que seria o Campeonato Brasileiro daquele ano), com o apoio da Rede Globo, da Coca-Cola e da Varig – torneio de que o campeão seria um dos “grandes” cariocas: o Flamengo. Fora do Clube dos 13, o America foi excluído da competição, juntamente com o Guarani, que tinha sido vice-campeão em 1986. Posteriormente, com a competição já em andamento, o Clube dos 13 fez as pazes com a CBF, que alterou o regulamento e criou um novo grupo na disputa (o módulo amarelo), nele incluindo o America. Contudo, o America – fiel à sua história de luta contra as decisões arbitrárias da CBF e da Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro – recusou-se a participar da competição, perdendo todas as partidas que deveria disputar por W.O. e ficando sem pontuar por todo o campeonato.
Esse foi um divisor de águas na história americana. O competitivo America de 1986 não disputou o brasileiro de 1987; o time foi desmontado; no ano de 1988, já não tinha a mesma força. O 3° lugar de 1986 ficou na última posição em 1988, caindo para a segunda divisão. Se, nas décadas seguintes, o America passaria a lutar para tornar-se uma potência regional, isso se deve à sua recusa em acatar os desmandos da CBF e ao Clube dos 13 – que rebaixaram o America, mas que não pouparam esforços para ajudar os “grandes” cariocas. Graças à CBF e ao Clube dos 13, o Fluminense escapou de ser rebaixado em 1996 e ascendeu da terceira divisão para a primeira em 2000. Graças à CBF e ao Clube dos 13, o Flamengo foi um dos vencedores do Campeonato Brasileiro de 1987 (sem ter que enfrentar o America, melhor time carioca da temporada anterior). Graças à CBF e ao Clube dos 13, o Botafogo escapou do rebaixamento em 1999 (ano do "caso Sandro Hiroshi"). Graças à CBF e ao Clube dos 13, o regulamento do Campeonato Brasileiro de 2000 foi alterado para que o Vasco não fosse punido pelo acidente que deixou mais de cem feridos em São Januário; dessa forma, foi disputado um novo jogo no Maracanã, graças a que o Vasco foi o campeão daquele ano, sobre o São Caetano.
Ainda hoje, o Clube dos 13 é a entidade que negocia os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, além de defender os interesses dos seus afiliados – entre os quais não está o America, que por isso não tem a seu favor nem a mídia esportiva que qualifica como “grandes” cariocas os quatro clubes que fazem parte do Clube dos 13, nem as manobras políticas que historicamente os favoreceram. Sem mídia, o America tem dificuldades para atrair novos torcedores; sem suporte político, o America tem dificuldades para resistir contra arbitragens tendenciosas e decisões administrativas que o prejudicam.
A decadência do America começou em 1987 – e continua até os tempos atuais. Embora os outros "grandes" cariocas também tenham sofrido com administrações amadorísticas, o fato de o America permanecer afastado da mídia e de a sua torcida ter diminuído vertiginosamente ao longo dos anos faz com que a pressão sobre seus dirigentes seja muito menor, e que seja mais fácil manobrar "nas sombras". O episódio de 1987 não foi, em si, um erro: a recusa a aceitar as negociações da cartolagem pode ser vista como um ato de resistência; como o capítulo final de uma história marcada pelo respeito ao esporte. O problemas começaram depois disso, quando os valores consagrados por essa história foram paulatinamente esquecidos.
A histórica goleada sofrida para o Vasco é um símbolo de tudo isso. A torcida americana conhece os bastidores – desde as disputas de poder até o fato de que os jogadores, já com problemas salariais, sabiam que seriam dispensados depois daquele jogo (o que de fato ocorreu). Embora o time fosse fraco, é difícil explicar que uma equipe sofra uma goleada tão elástica demonstrando tão explicitamente o seu desinteresse, mesmo sem utilizar as (lamentáveis) táticas que, num momento de desespero, visam a segurar o placar; basta que se perceba que os jogadores vascaínos receberam mais cartões amarelos (2) do que os jogadores do America (1). Se isso ocorresse com um dos quatro "grandes", decerto haveria uma investigação sobre os motivos do vexame; no caso do America, à exceção de pouquíssimos jornalistas (que, ainda assim, limitaram-se a comentar os problemas salariais que atingiam a equipe rubra), a imprensa não fez mais do que externar a sua "pena". Mais adequado seria apontar os culpados por gerenciar o futebol do America, demonstrando seu desrespeito à ética desportiva e à história americana.
O America agoniza. Desde 1987, conseguiu um único resultado expressivo no campeonato estadual – em 2006, quando foi o time que mais pontuou ao longo de toda a competição; mas a falta de continuidade e de projetos a longo prazo revela-se no fato de que dois anos depois foi rebaixado para a série B estadual. Não será pela ação de salvadores de última hora ou de efêmeros projetos emergenciais que essa história será revertida; o que pode reescrevê-la é uma mudança de atitude que relembre aos responsáveis pelos rumos do America sua história de lealdade e dedicação ao futebol, representada pelo ídolo maior Belfort Duarte. Hoje, o America briga contra o rebaixamento. Hoje, o America luta contra o esquecimento.
P.S.: a imagem que ilustra este texto foi propositalmente distorcida.







.png)






