Kiki Smith: corpo e política
No campo da gravura, a produção da artista estadunidense de origem germânica Kiki Smith remonta à década de 1980. Autora de um trabalho desde sempre marcado por densos questionamentos políticos, Smith desenvolveu um conjunto de obras que abordou, de um modo instigante, a condição do sujeito − e, em particular, da mulher − na contemporaneidade; tratarei aqui, ainda que de modo breve, de parte dessa produção, em particular a relacionada à representação do corpo.
Em 1985, Kiki Smith publicou seu primeiro portfólio de gravuras, de título Possession is Nine-Tenths of the Law. O título refere-se a uma noção jurídica intuitiva: em qualquer tipo de disputa, aquele que detém a posse de algo está, a princípio, numa posição vantajosa em relação a qualquer outro que reclame aquele direito. Como esse título se articula com as nove serigrafias e monotipias que constituem um trabalho que reúne figurações dos órgãos do corpo humano? Também aqui encontramos o temário político característico da obra de Kiki Smith, que ora se debruça sobre os modos de incidência do poder sobre o corpo − o que se efetiva por intermédio de inúmeras normatizações viabilizadas essencialmente pela cultura: não conhecemos o modo e o momento corretos de comer, de copular, de excretar? Eis que, ao expor aqueles órgãos e evocar aquele princípio jurídico, Kiki Smith evidencia precisamente um conjunto de dispositivos de controle que, naturalizados, conduzem à internalização de normas que se impõem sobre as funções fisiológicas mais elementares. Trata-se, portanto, de denunciar efeitos do poder que nos perpassam, atuando desde a superfície, mas constituindo também determinações a partir do interior.
Questionamentos similares suscita a instigante água-tinta Kiki Smith 1993. A gravura nos apresenta integralmente o sistema digestivo humano, logrando alcançar valor estético pela textura obtida por meio de tênues linhas e impressões digitais que contrastam com o fundo abstrato; não obstante, o que julgo relevante é que, a meu ver, pode-se propor para a obra uma leitura que supera o âmbito meramente anatômico. Cabe observar que, não por acaso, os dois extremos do sistema figurado são a língua e o ânus, áreas do corpo que desempenham papéis fulcrais no campo de representações pornográficas, com o qual Kiki Smith eventualmente dialoga; desse modo, julgo pertinente observar que, ao reinseri-las no sistema de que fazem parte e ao figurá-lo por inteiro, o que faz a artista é afirmar a integridade do corpo, cuja individualização se dá pelo nome que intitula a obra. Trata-se, afinal, de rejeitar a possibilidade de se reduzir a mulher ao corpo fragmentado, caminho que invariavelmente conduz à reificação. Afirmar o corpo de modo pleno, rechaçando os ditames do decoro e as normas dele decorrentes, significa reconhecer o direito ao corpo como forma de resistência: se a discrição impõe o ocultamento dos órgãos e dos fluidos, o que é apenas uma instância de um conjunto de interdições muito mais amplo − e que se efetiva pelo pudor e pela vergonha, sempre eficazes dispositivos para a exclusão e para o controle social −, exibi-los ostentivamente é um ato de enfrentamento.







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