A morte feliz
Discípulo de Platão, o filósofo grego Epicuro viveu há mais de um milênio e meio, numa época de terror e opressão; por isso, foi-lhe impossível dedicar-se à elaboração de uma filosofia que não tratasse, essencialmente, dos problemas concretos e urgentes com que tinham de lidar seus contemporâneos − muitos dos quais ainda nos afligem. De que nos servem as mais refinadas especulações e os mais sutis raciocínios, se são incapazes de nos conduzir ao que efetivamente procuramos: a paz de espírito? Para Epicuro, a filosofia se assemelhava à medicina; e, entre os males que deveria curar, assomava um que jamais deixou de atormentar o homem: a morte. Por que temê-la, indagava o filósofo, se enquanto estamos vivos não a conhecemos, e se quando ela chega, já não existimos? Ademais, não faz sentido que nos aflijamos ao esperá-la: para aquele que teve uma boa vida, a morte é como um repouso que não será ameaçado; por outro lado, aquele cuja vida foi odiosa certamente não gostaria de prolongá-la.Se começo o texto com essa síntese (brevíssima e simplificadora) de um dos mais instigantes temas do epicurismo, faço-o porque O gosto do apfelstrudel (Escrita Fina, 2010), de Gustavo Bernardo, também trata desta indagação, aliás intrínseca à experiência humana: qual é o sentido da morte? − pergunta que, ao ser formulada, faz com que emerja sua gêmea: qual é o sentido da vida?
H está em coma; sabe que seu corpo − castigado pela idade, pela diabete, por dois cânceres − não tem mais condições de resistir. Embora não o saibam os médicos, está lúcido: percebe tudo o que ocorre ao seu redor. Ouve o que dizem, desde as piadas dos enfermeiros até as conversas dos parentes; sabe quando chegam os filhos e os netos; ouve o som dos aparelhos que o mantêm vivo. H ainda faz parte do mundo; o mundo ainda faz parte dele − sobretudo, através das memórias. Recorda a infância, atormentada pelas sombras da guerra e por soldados que falavam a mesma língua do seu pai, o que o fez dividir a realidade: de um lado, o mundo escuro, solidão e terror, "alemão ruim"; de outro, o claro quintal, família e panqueca no almoço, "brasileiro e alemão bom". Lembra-se dos jogos de futebol: as vitórias do Fluminense que testemunhou; o Maracanazzo, em 1950, em que estivera presente. Pensa na relação com os filhos − tão diferentes, mas tão parecidos com H −, motivo de tantos orgulhos. Reflete, enfim, sobre o que fez de si mesmo e daqueles que o cercam; aqueles que, após a sua partida, perpetuarão sua presença no mundo através da memória.
Embora trate de temas tão graves − além da doença e da morte, também o racismo é abordado a certa altura −, O gosto do apfelstrudel oferece uma leitura aprazível, mesmo sem abrir mão, em nenhum momento, da franqueza e de um ponto de vista isento de vieses religiosos. É isso o que torna valioso o livro de Gustavo Bernardo, sobretudo para o público juvenil a que se destina: trata-se de uma obra fortemente comprometida com valores humanistas, proposta que se desdobra até o nível da narrativa, que contempla toda a multiplicidade de aspectos − dos mais solares aos mais dolorosos − da nossa existência. São eles, afinal, que concedem uma singular riqueza à vida humana.
A lição que resta, de fato, não permanece muito distante daquilo que pensava Epicuro: para os bons, a morte é não mais que um repouso; por conseguinte, o que importa é viver de forma digna − de modo que, ao fim da vida, um olhar para o que guarda a memória não suscite tristeza ou arrependimento. É nisso que reside a grandeza humana; por isso a vida de H é exemplar, e por isso ele é visto como um herói por aqueles que com ele conviveram.







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