O domador de unicórnios
Há uma família de poetas à qual apraz o silêncio. Ao senso comum, podem parecer um tanto quanto estranhos: se conhecemos diversos escritores (muitos sem grandes talentos) que aos ventos alardeiam os mais sucintos elogios recebidos de celebridades literárias, o que faz com que esses poucos, cujo talento foi francamente reconhecido por nomes de vulto, ajam com tanta discrição? No caso que em particular nos interessa: o que leva Francisco Marcelo Cabral, elogiado por gente como Manuel Bandeira, Guimarães Rosa e Mário Faustino, a publicar pouco (sete livros em quase sessenta anos de vida literária), sem reclamar para si a atenção que costumeiramente exigem os poetas?"Só o silêncio é musical", dizia Dante Milano, talvez o nome maior dessa família poética; e talvez seja essa a única resposta para as questões apresentadas no parágrafo anterior. É no silêncio que esses artífices se dedicam ao árduo trabalho de criação literária, que demanda um íntimo compromisso com a palavra; e essa fidelidade é o que determina a alta qualidade das suas obras.
Vejam-se os poemas deste Campo marcado (Booklink, 2010). "Unicórnio" traz, em suas estrofes finais, uma valiosa apreciação da experiência poética:
Não se escapa do poema.
Ele te envolve
com o diamante da cegueira
e te estrangula
com suas garras de pedra
ave-leão de face aguda e fuzilante
nunca decifrada.
Tenta conquistá-lo
e será teu como o unicórnio
atado com cordéis de linho e seda
submisso ao jugo amoroso da donzela
em seu jardim de gozos e surpresas.
Não poderia ser mais adequada a imagem: animal raro, o poema só se entrega à sensibilidade que de fato o merece; é preciso cortejá-lo, visitá-lo até conquistar a sua confiança. Francisco Marcelo Cabral aprendeu a melhor forma de fazê-lo, dedicando-se a essa arte com um rigor exemplar. Construída com esmero, sua poesia não se rende ao efêmero; seu lirismo enlaça as múltiplas faces da vida numa vasta pletora imagética. Lemos em "Poema":
Amo as máscaras e metáforas
e seu poder ambíguo de invenção
que faz do cervo o predador do tigre
e refluir às fontes
as águas despejadas das vertentes.
[...]
Amo o que não compreendo:
o espinho da palavra rasgando o papel
e seus rastos de sabre, sal e magnólia.
"O calado da palavra / toca o fundo do poema", afirma Francisco, ressaltando a função essencial do discurso lírico: dizer o que o supera. Afeito ao inefável, também por isso o poeta prefere o silêncio: sabe que o fazer poético tangencia o sagrado, diz respeito aos sentidos do ser. Viver a poesia é perscrutar esses segredos, sempre através da palavra. Eis o que indaga "Tarde qualquer de outono":
Que dardos ferem o corpo do poema
sem desfazer seus ninhos de vidro
nem deter a captura das palavras
que alimentam as águias da poesia
sempre famintas, sempre no cio?
Um mistério dilacera a tarde fria:
que é palavra?
poema?
que é poesia?
A Francisco Marcelo Cabral é familiar esse mistério; e justamente por reconhecê-lo enquanto tal, por respeitar os limites do verbo, o poeta logra alcançar as rarefeitas alturas em que habita a verdadeira poesia -- esse animal que tão raramente dá-se ao laço. Campo marcado poderia, enfim, ter também este outro título: a arte de domar unicórnios.







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