Conversas da noite
Não deixa de ser curioso o fato de Maria Lúcia Martins afirmar, numa entrevista, que só começou a escrever depois que começou a fazer análise, experiência que a motivou a explorar "coisas escondidas"; curioso porque isso desmente o temor de muitos escritores, que se recusam a submeter-se à análise justamente por receio de que isso prejudique ou interdite a sua expressão literária. Não obstante, Maria Lúcia − que, aliás, tem formação psicanalítica − afirma, citando Jacques Lacan: a poesia "diz o indizível do que a psicanálise busca". Nessa medida, escrever não deixa de ser um exercício de coragem, enquanto prática que visa à manifestação de uma verdade profunda, não raro dolorosa − e todo aquele que se lança à poesia deve estar preparado para enfrentá-la.De fato, a escrita presente em Conversas da noite (EPP, 2009) não recusa o conflito. Encerra a obra um lirismo que, nos melhores momentos, luta abertamente com a razão, num esforço que visa à expressão do que a supera − e que pulsa na dimensão mais íntima do humano. A mais legítima experiência poética é sempre universal, justamente por desconhecer as contingências, tangenciando o que há de mais essencial na relação entre o homem e o mundo. Por isso a poesia, como a filosofia, faz da sua matéria o espanto − o que serve como tema para um dos melhores poemas do livro, "Engano encantado":
Onde quer que estejas, escuta o silêncio
de nossa mudança em seu movimento:
lenta a lua expulsa temores da noite
e já o sol tece fulgor de um novo dia.
[...]
E de que se alegram estrelas do céu?
A alegria é. Não necessita razão.
"A lua não faz poemas", escreve em outro texto Maria Lúcia, reconhecendo que subjaz à criação poética uma espécie de falta ontológica: porque em nossa existência há um vazio, escrevemos, numa (vã?) tentativa de preenchê-lo. Por isso, o lirismo é feito de fragmentos que espelham uma mesma carência fundamental. Lemos em "Cerne e sentimento":
Poesia, salmo de humanos,
tempo cravado de imagens;
um dia, talvez, recolhidas.
[...]
Poema. Muitos se enganam.
Há os que juram, para fazê-lo,
carecer de um certo evento,
mote, rima, ou os versos livres.
Poema é um renque de imagens
em torno de um só sentimento.
Sendo a luta difícil e desigual, é compreensível que, por vezes, seja a razão soberana, invadindo um terreno que lhe é estranho; é quando, na poesia de Maria Lúcia Martins, as construções intelectualizadas sufocam o lirismo, não raro materializando-se num discurso densamente psicanalítico. Isso é perceptível em poemas como "Bela sem Fera não sabe a rosa" ou "Escrita que não se apaga", entre outros. Cabe, no entanto, observar que é esse um risco intrínseco à criação literária, que compreende a dificílima tarefa de encerrar em palavras o indizível; tarefa que, afinal, é impossível suportar plenamente.







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