Três sonetos para a mão esquerda
O vampiro sempre figurou como uma alegoria para a obscura face (auto)destrutiva do homem – que pode ser aplacada, mas nunca inteiramente eliminada. Perene no imaginário de inúmeras culturas, esse simbolismo é o motivo desta trilogia. Pouco privilegiado pela tradição, o modelo de soneto aqui utilizado (dois sextetos seguidos por um dístico, estrutura aproveitada por poetas como Yeats) visa conceder espaço para a apresentação e o desenvolvimento do tema, cabendo ao dístico arrematar o poema.

Três sonetos para a mão esquerda
I.
Eu que, no espelho, ao ver meu próprio rosto,
no olhar encontro o mais fero inimigo:
sempre a acossar-me, sedento – este monstro
que atros caminhos percorre comigo
na ávida busca pelo sangue ralo
que arrasto nas veias. Fito-me. Calo.
Fujo, com os olhos fechados – em vão:
eis que ainda o vejo, a tomar minha mão,
a escavar-me o peito, pérfido verme –
e eu, feito escravo, já aos seus pés inerme,
silente me entrego (se a fuga é inútil!),
ao monstro unido num manto inconsútil.
A cada passo, só a mim mesmo firo
e a mim mesmo devoro: eu – meu vampiro.
II.
Não escolhi ter nas sombras meu lar.
Não escolhi ser um outro, um estranho
a percorrer trilhas sestras e obscuras –
tendo ao meu lado as mais vis criaturas,
negando a face aos olhares humanos
como um herege que recusa o altar.
Não escolhi ser o esquerdo, o maldito,
o que esta vida ao avesso conhece,
o que tem na madrugada o seu dia;
ser o que os homens arrasta à agonia,
o cujo toque a beleza apodrece,
o condenado a viver esquecido –
minha é, entretanto, esta sinistra sorte:
sou, para os homens, o augúrio da morte.
III.
Se, por um breve momento, livrasses
deste teu peito o pavor que o domina;
se um mais além teu olhar alcançasse –
um mundo estranho às humanas rotinas
descobririas: o mundo em que vivo;
por isso, à tua razão sou esquivo.
E, se me visses, o que pensarias?
Que eu sou o contrário de ti – teu inverso?
A diferença entre nós, todavia,
vês porque nunca me fitas de perto.
Eu sou teu duplo, teu gêmeo, teu par.
Eu sou a essência que anseias negar.
Sigo, invisível, cada um dos teus passos:
sempre, em teu sangue, mais forte renasço.
por Henrique Marques-Samyn
[ilustração: óleo de E. Munch - Vampyr, 1895]







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