29.8.10

Uma voz singular

Obra mais recente de Lina Tâmega Peixoto, Prefácio de vida se abre com uma bela quadra de Cecília Meireles. Avançando mais umas poucas páginas, deparamo-nos com uma nota que explicita o teor do prefácio da obra − prefácio ao Prefácio − , intitulado "Cecília Meireles − estrela e abismo"; trata-se de um belíssimo relato autobiográfico que, abordando aspectos da convivência de Lina com Cecília, explicita como a profunda amizade entre as duas (interrompida apenas com o falecimento de Cecília Meireles) deixou indeléveis marcas na vida e na poesia de Lina Tâmega. Evidentemente, tudo isso cria uma expectativa: a de que Prefácio de vida reúna poemas que prestem um tributo à autora de Vaga música, e que o vulto dessa esteja subjacente a cada uma das peças líricas que nele se encontram. Contudo, basta ler os primeiros poemas do livro para perceber que Cecília raramente se faz explicitamente presente naqueles versos. Tão forte e tão característica é a voz lírica de Lina Tâmega que as marcas da influência se encontram plenamente diluídas, como é desejável em qualquer poeta de vulto; desse modo, o prefácio ao Prefácio cumpre exatamente o seu objetivo: não traz "à superfície o que está imerso nos poemas", mas nos permite compreender como "as necessárias tensões do ato criador" foram configuradas, na convivência com Cecília Meireles, para formar uma linguagem poética vigorosa e autônoma. Em outras palavras: a grandeza da homenagem que Lina Tâmega oferece a Cecília está precisamente no reconhecimento de o quanto essa a guiou no caminho para a independência.

Abre o livro o poema que a ele empresta o nome, e os primeiros versos deste "Prefácio de vida" de certo modo representam características fundamentais da poética de Lina Tâmega Peixoto: "Ignoro a invocação da tristeza / e, entre os favores da vida, / ergo uma casa, unida a pedra à neblina". A imagem é sintomática: construir um poema é um pouco como erguer uma casa, feita com as pedras da realidade e com a neblina do lirismo; e uma leitura desta e de outras poesias constantes da obra nos leva a indagar se a poetisa, de fato, não constrói suas casas líricas como uma forma de ocultar as invocações da tristeza. A perda e as sombras da memória comparecem frequentemente nos poemas de Lina Tâmega, sempre transfiguradas por imagens de extrema delicadeza − que, não obstante, intensificam sua pungência. É notável, no entanto, como essa é uma poesia isenta de hesitações, ainda quando se trata de dizer o insuportável; é o que se vê em poemas como "Imprecações" ("Corto a flor e lhe dou perfeição e beleza / enquanto vibram cores e aromas na jarra. / E se ela morre pelo laço do tempo / e se afunda num buraco de pétalas? // ... // A nuvem, suculenta e gorda, / carrega na barriga filhotes de ovelha. / E se a gaivota comer a brancura macia / confundida com um miolo de pão?") e "Incursão do tempo" ("A morte veio apressada e partiu / encorpando as lágrimas da cantilena / amarradas ainda ao pulso do encontro."). A propósito, é nesses poemas avassaladora a presença do tempo, de cuja implacável presença só nos olvidamos pela experiência amorosa (que, nos poemas de Prefácio de vida, encerra um enlevo soberano: "Meu amado ilumina meu corpo / com a tocha que acende / como um lírio do firmamento", afirma "Exercício de virtude n° 8") ou pela própria poesia (assim lemos em "Mimetismo": "Escrevo poemas, inundo de poemas / a medula da vida / e confundo o vaivém da folha branca / com lassos movimentos de amores. // Se estiveres, meu amigo, perto do poema, / procura a minha mão"). Só o amor e a arte oferecem promessas de perenidade.

À guisa de conclusão, resgatemos o que aventamos no início deste texto − ou seja: a leitura de Prefácio de vida como uma homenagem − a fim de fazer um último esclarecimento. Se o livro pode ser lido como um preito a Cecília Meireles, cabe ressaltar que a (quase) ausência − ou, melhor dizendo: a escassez de uma presença ostensiva − da amiga e mestra de Lina Tâmega Peixoto nas páginas do livro é o que melhor indicia a absoluta dimensão desse tributo. É como se Lina apresentasse à amiga toda a sua obra e, com voz humilde, reconhecesse: "em tudo isso estás presente". Podemos facilmente imaginar a alegria com que Cecília perceberia que foi atendida no pedido que tantas vezes fez à autora de Prefácio de vida: "não me esqueça".