22.8.10

A revolucionária esquecida

Jacinta Passos é um daqueles raros casos em que a trajetória biográfica e a literária despertam igual interesse. É difícil não admirar a vida dessa mulher que, para ser fiel a si mesma, ousava desafiar abertamente consensos e preconceitos, assumindo consequências que iam desde a censura familiar e social até a perseguição política. De fato, constam de sua biografia elementos que renderiam uma comovente obra romanesca: louváveis convicções morais (que levaram Jacinta, oriunda de uma tradicional família baiana, a recusar sua herança e a mudar-se para um então paupérrimo povoado sergipano a fim de conscientizar politicamente os pescadores que lá viviam − e que viriam a traí-la); uma assombrosa independência intelectual (que a levou a renunciar ao catolicismo que ardentemente professara até a juventude em prol da militância comunista); um temperamento singular (que a fez desafiar todas as convenções sociais que condenavam a mulher a uma posição submissa, defendendo sua autonomia profissional e sua liberdade sexual); e uma morte trágica, sucumbindo a uma esquizofrenia para a qual, na época, não havia um tratamento adequado.

Para além dessa extraordinária trajetória biográfica, Jacinta Passos foi a autora de uma vasta obra literária − dedicou-se principalmente à poesia, mas assinou também contos, minicontos e mesmo uma peça de teatro − e de importantes textos críticos e jornalísticos − que tratam da poesia brasileira nas décadas de 1940 e 1950 e da situação feminina, por exemplo. Seu lugar no cenário intelectual brasileiro pode ser mensurado por sua fortuna crítica, da qual constam textos assinados por nomes como Antonio Cândido, Sérgio Milliet e José Paulo Paes. Levando-se tudo isso em conta, impressiona perceber que Jacinta é, hoje, uma escritora desconhecida, situação em que talvez permanecesse ainda por longos anos, não fosse a publicação deste monumental Jacinta Passos, coração militante: poesia, prosa, biografia, fortuna crítica. Organizado por Janaína Amado, filha de Jacinta e professora aposentada da Universidade de Brasília, a obra tem um valor imensurável: com quase seiscentas páginas, o volume reúne toda a obra publicada pela poetisa, incluindo textos literários e jornalísticos, além de manuscritos inéditos; uma valiosa fortuna crítica, incluindo textos produzidos especialmente para a edição; uma biografia, assinada pela organizadora, construída com base em entrevistas e numa ampla documentação; farta iconografia e, finalmente, um amplo levantamento bibliográfico.

A estreia de Jacinta Passos em livro ocorreu em 1942, com a publicação de Nossos poemas,livro dividido em duas partes: a primeira, "Momentos de poesia", que reunia 38 poemas de Jacinta; e a segunda, intitulada "Mundo em agonia", que trazia obras assinadas por seu irmão, Manuel Caetano Filho. Obra de uma autora jovem, ainda em busca de uma voz própria, mas indiscutivelmente promissora, mereceu a atenção de destacados nomes da crítica literária baiana daquela época: Carlos Chiacchio qualificou-a como autora "sem nenhuma pretensão a gênio, mas com toda a espontaneidade de alma"; Lafaiete Spinola censurou o gosto pela abstração da jovem poetisa, a seu ver artista "senão de momentos grandiosos, pelo menos de delicados painéis", nela ressalvando "um defeito raro nas mulheres", a seu ver: o de pensar. Aos olhos contemporâneos, essa parte da produção de Jacinta Passos se revela em grande parte datada, por muito devedora da estética em cujo âmbito foi concebida; não obstante, ali encontramos um poema como "O canto de amanhã", menos metafísico e mais próximo do tom político em que a poetisa encontraria seu temário principal ("Eu seja apenas uma coisa entre as coisas de que os homens se servem, / entre pedras, ferro, pai, mãe, / ouro, árvores, filhos, irmãos e companheiros, / entre animais, carvão, petróleo, alavancas e máquinas. / Minha cabeça se curve ao peso da fria injustiça organizada e aceite / e receba a piedade como último insulto.").

Em 1945, surge Canção da partida. Publicado em tiragem de 200 exemplares, numerados e assinados pela autora, a esmerada edição trazia 5 desenhos de Lasar Segall preparados especialmente para a obra. Esses poemas registram uma mudança fundamental no lirismo de Jacinta: é perceptível a renúncia à artificiosa dicção da obra anterior, que culminava num lirismo vago e de pretensões totalizantes, e a consequente construção de uma poesia que adere ao mundo, incorporando elementos biográficos. Essa guinada não passaria despercebida aos atentos olhos de Antonio Candido, que acusa o afastamento da "austeridade formal" e da "elevação de tom" dos poemas anteriores de Jacinta Passos, revelando sua preferência pelos poemas de metro curto, nos quais a autora "revela uma imaginação mais fresca e um encantamento rítmico cheio de seiva folclórica". O melhor do livro, a meu ver, são justamente os poemas em que se estabelece a síntese entre a dicção mais concreta e menos dilatada e aquele impulso para o universal, matizado por uma inabalável esperança política, essa já presente na obra anterior; disso resultam excelentes poemas como "Navio de imigrantes" ("Arca ou navio, / nau ou galera, / vens doutra era, / séculos a fio. // Qual o teu rumo? // Levas o sumo / da dor humana / que se supera, / vida ou quimera.") e "Sangue negro" ("Terras curvas do Recôncavo / onde adormece o oceano, / de tuas veias abertas / escorre / o petróleo baiano, / sangue negro do Brasil.").

Os dois últimos livros de Jacinta demonstram o amadurecimento de tendências já presentes em Canção da partida. Poemas políticos, de 1951, é o raro registro de uma poesia fortemente engajada e marcadamente histórica que, no entanto, preserva sua força estética, como lemos em "O rio" ou "O enforcado" ("Aqui é Brasil. A infâmia outra vez. Te lembras, Tiradentes? / o quinto do ouro, a família real, e o vinte e um de abril? / Eu sei do medo e da cobiça. O demônio nascendo / no turvo. O demônio da guerra / nascendo no cérebro dos cavaleiros do lucro: − Não podemos parar."); traz o livro também "Canções líricas", entre elas a extraordinária "Canção atual" ("Quanto deus caiu do céu / tanto riso neste chão, / fala de servo calado / pisado / soluço de multidão".). A Coluna, de 1975, é um pujante épico que, em quinze cantos, resgata a Coluna Prestes − admirável tour de force que coroa a obra de Jacinta Passos, revelando uma autora de pleno domínio formal, dotada de uma singular competência para traduzir o ideário político em imagens poéticas, esquivando-se aos riscos do panfletarismo. Transcrever fragmentos da obra resultaria na fragmentação de um discurso poético que prima por sua consistência e unidade, razão pela qual não isso não será feito aqui.

Resgatada do esquecimento, a poesia de Jacinta Passos vem recebendo estudos que reavaliam um conjunto de parâmetros críticos que, por longo tempo, ensejaram o seu reconhecimento como obra menor; exemplo disso são as pioneiras avaliações de Carlos Chiacchio, Lafaiete Spinola e Sérgio Milliet, que ainda a leram como expressão de um essencializado "lirismo feminino" (a expressão é de Chiacchio; Milliet louvou em Jacinta o fato de ela não "se esquecer" de que é mulher, ao passo que Spinola, como anteriormente mencionado, nela censurou o "defeito" de pensar, que considerava "raro" nas mulheres). O volume organizado por Janaína Amado traz uma amostra dos novos estudos dedicados à obra da autora baiana, que tendem a repensar o seu lugar na história da poesia brasileira; esse, no entanto, é um trabalho que apenas se inicia. É chegada, enfim, a hora de reler Jacinta Passos.

[Texto originalmente publicado no Jornal do Brasil, em versão resumida, e na revista Speculum]