25.4.09

Três narrativas sobre o poder

Reunindo as três narrativas premiadas nas edições XV, XVI e XVII do Certame Manuel Murguía, Tres merlos brancos (A Coruña: Espiral Maior, 2008) reúne textos perpassados por uma mesma temática fulcral: o poder. As diversas abordagens perceptíveis nos contos premiados refletem a complexidade e a força de um tema que, se em todos os tempos esteve de algum modo presente na literatura, por sua própria natureza jamais haverá de ser esgotado; trata-se, por outro lado, de um assunto cuja urgência não pode ser negada, como o atestam os três autores presentes na obra.

“A caída da folla”, de Xesús Manuel Marcos, é uma narrativa que transcorre numa aldeia galega no final dos anos 1930. A vida de todos os habitantes do lugar depende de uma serraria que, conquanto devesse pertencer às irmãs daquele que a criou visando ao bem da aldeia, é de fato dominada pelos homens que com elas se casaram – e que, valendo-se da posição de proprietários da serraria, exercem sobre toda a aldeia uma autoridade opressiva. Narrativa de fortes tons políticos, “A caída da folla” é uma reflexão de matizes distópicos em torno de um dos mais sombrios aspectos daquilo que se costuma chamar de natureza humana: a inesgotável ânsia de dominação – que, se em menor escala pode se exercer numa pequena aldeia, não raro se estende a ponto de envolver nações inteiras, conforme a história não nos permite esquecer.

Miriam Rodríguez comparece no livro com “Mentres espero”, conto cujo centro é a precária existência de um protagonista que se vê, desde a infância, privado de qualquer afeto – a não ser aquele que ele mesmo consegue através do convívio com os animais. Engenhosamente construído sob a forma de um relato autobiográfico que, todavia, é limitado pelo emprego de um vocabulário e de uma sintaxe propositadamente frágeis, “Mentres espero” reflete a dura condição psicológica de um sujeito duplamente oprimido: no ambiente doméstico, pela irascível tia a quem sua criação foi entregue; na fábrica onde trabalha, pela rotina que reifica e obscurece os indivíduos. Os silentes laços que unem o protagonista à sua irmã representam uma inútil tentativa de resistência, operando na narrativa de modo a enfatizar a condição daqueles cuja vida se assemelha a uma forma moderna de escravidão.

“Un domingo amarelo para dentro”, de Alva Martínez Teixeiro, é uma elaborada construção ficcional acerca de uma comunidade de artistas húngaros em meio à transição para o capitalismo. A estrutura narrativa, aparentemente uma espécie de crônica, oculta não obstante um complexo jogo de referências que remete a eventos históricos e políticos; basta observar que o nome do protagonista, Ferenc Rákosi, é o mesmo do líder da revolta húngara contra o domínio dos Habsburgos, no início do século XVIII, sendo possível entrever curiosos paralelos entre suas trajetórias. Atravessado por uma densa e calculada ironia, “Un domingo amarelo para dentro” comporta uma reflexão em torno dos instáveis liames entre a arte e o poder – uma relação que, como acertadamente sugere Alva Martínez, não raro se vê confinada às obscuras vias do cinismo e do falseamento.