Contra a mulher fragmentada: de Gilka Machado à Marcha das Vadias
Se a mulher de que trata o poema, ao olhar para si mesma, via-se fragmentada, é porque ainda se encontrava prisioneira de condições históricas que a oprimiam. Ao não ser "como as demais mulheres", assumindo o seu erotismo, a subjetividade feminina se tornava um alvo de incompreensão: o olhar alheio − ainda que amoroso − dela fazia um duplo, criando em seu seio uma rival, um espectro interior ("íntimo avantesma"), único centro admissível para o desejo. Esse dilaceramento reflete, por outro lado, aquele ao qual a própria autora desses versos foi submetida; basta lembrar que os críticos que defenderam seu talento, como Agripino Grieco, tiveram o cuidado de estabelecer fronteiras entre a mulher Gilka Machado, de vida "modesta e altiva", e aquela poetisa que, "apenas nos domínios da arte", ousava fazer o que somente aos homens era permitido. É fato que Gilka não era assim tão comportada: se o fosse, não escreveria o que escreveu − e nem concederia à sua filha, Eros Volúsia, a educação que dela faria outra revolucionária, a "Salomé brasileira" (como foi alcunhada na Europa) responsável por redefinir a dança nacional. Mas foi essa a maneira que a sociedade conservadora encontrou para admitir o seu talento: partindo-a, fracionando-a, traçando um limite entre a mulher e a voz e confinando cada qual ao seu espaço.
O que tudo isso tem a ver com a Macha das Vadias ('Slutwalk')? A meu ver, o movimento que (felizmente) hoje se alastra pelo Brasil e pelo mundo é um desdobramento da luta na qual se empenharam, outrora, Gilka Machado e tantas outras: todos esses casos fazem parte de uma história de resistência à alienação da mulher. O acontecimento que está na origem da marcha − a sugestão do policial de Toronto, Constable Michael Sanguinetti, segundo a qual as mulheres não deveriam se vestir como 'vadias' ('sluts') para não serem vítimas de estupro − diz respeito a uma reinvindicação fundamental: o direito ao pleno uso do próprio corpo. Acolher o "conselho" de Sanguinetti significaria aceitar, uma vez mais, a fragmentação imposta por uma história construída pelos homens: implicaria admitir que eles detêm a autoridade sobre o corpo feminino; que a eles cabe ditar as normas, e que as mulheres devem meramente aceitá-las − para o seu próprio bem, é claro.Ressignificar o termo 'vadia' (e 'vagabunda' e similares) é um ato de apropriação análogo ao realizado por Gilka, quando assumia o seu "glorioso pecado": é confrontar o senso comum e promover uma releitura construtiva da história; é reclamar o direito de fazer suas próprias regras. Não se perpetua a fragmentação denunciada pela poetisa sempre que uma mulher abdica ao que pensa e ao que deseja e faz, de si, a "outra" que melhor se adequa à hipocrisia dos "bons costumes"? Dividida e lançada de encontro a si mesma, obrigada a combater os seus próprios "íntimos avantesmas", a mulher é enfraquecida − tornando-se, por conseguinte, mais facilmente manipulável, e cada vez mais enredada nas definições que lhe são impostas. Inverter esse processo passa por criar novos sentidos para antigos conceitos: é essa uma etapa que está na base de fundamentais transformações − por exemplo, a construção de novos papéis sociais para as mulheres. Se esses termos pejorativos sempre serviram para controlar o comportamento feminino, melhor é que as mulheres se apropriem deles e deem, assim, mais um passo rumo à construção de uma sociedade igualitária. Se ser vadia é ser livre, sejam todas as mulheres − orgulhosamente − vadias.

[Imagens: foto de Gilka Machado, cartaz de Fred Bottrel e foto de Danilo Ramos]







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