
Prestes a completar sessenta anos, Glauco Mattoso ainda não encontrou o reconhecimento que merece. Nos diversos textos que já escrevi sobre seus livros − seja tratando da prosa paródica de A planta da donzela, seja dos travessos versos de A letra da ley e Malcriados recriados/sonetário sanitário, entre outros −, encontrei ocasião para destacar algumas das qualidades de sua obra: o pendor denunciatório, o alento anárquico, a rara fatura formal. Como observei num desses artigos, a situação de Glauco no mundo literário brasileiro é algo sintomática: embora esteja indiscutivelmente fadado a tornar-se um clássico de nossa literatura satírica e pornográfica, está longe de receber o devido reconhecimento de seus contemporâneos, o que atribuo às tendências moralistas (e não raro hipócritas) que entre nós permanecem vivas e ativas. Repetem-se, portanto, os mecanismos de exclusão que noutros tempos operaram, relegando à clandestinidade a voz que se alinha ao desvio.
Aos desvios, melhor seria dizer. Na escrita de Glauco Mattoso, com efeito, convergem configurações de subjetividades que, ao longo da História, sempre tenderam a ocupar posições minoritárias, quando não francamente proibidas. Fosse apenas homossexual, submisso ou masoquista, sua obra já seria deslocada para um lugar periférico, por contrapor-se às concepções tradicionais de masculinidade; sendo os três ao mesmo tempo, e assumindo explicitamente essa posição em sua poesia, francamente optou por um lugar à parte − em suas palavras, por ser "um malditão consumado ao invés de consumido". A atitude de Glauco, mais que louvável, é coerente: sua autenticidade é uma decorrência da fidelidade a si mesmo. Mais problemático é o fato de tantos se recusarem a ver a importância da produção glauquiana no cenário poético contemporâneo.
Basta que se perceba como inúmeras questões centrais na poesia brasileira, pelo menos desde meados do século XX, emergem na obra de Glauco Mattoso. Ninguém levou mais longe que ele o questionamento da definição de uma "matéria poética": seus milhares de sonetos versam sobre praticamente tudo − de Bo Diddley a Dercy Gonçalves, de poltronas a cachorros, do rock ao samba enredo. No soneto "Do frigir dos ovos" (769), trata do singelo prazer de degustar frituras:
A vida sem fritura não é vida!
Vegeta quem se priva do ovo frito,
do bife à milanesa ou, no palito,
dalgum petisco em mesa bem fornida.
[...]
Bolinhos, nunca servem-me o bastante,
de carne ou bacalhau! Se o que não mata
engorda, viva o charme do elefante!
Enquanto aborda, no "Soneto do bichinho de pelúcia" (836), a preferência (folclórica) por vampiros ou lobisomens:
[...]
Em termos de figura, o lobo humano
parece mais fofinho, pelos pêlos
que tem na cara toda, igual bichano.
Vampiros só provocam pesadelos
no povo brasileiro quando os danos
que causam na política vou lê-los.
Poucos questionaram como Glauco Mattoso a sexualidade humana, transitando desde o questionamento aos papéis, estereótipos e relações convencionais até as manifestações mais desviantes e "pervertidas". O soneto "Feminista" (344) tematiza os obstáculos à realização profissional e pessoal da mulher numa sociedade machista −
[...]
Parir, amamentar, dar gozo, é tudo
que os homens lhe concedem, grita a dita,
afora o afã doméstico, que é mudo.
Às vezes, uma ou outra se habilita
nas artes, no poder, no amor, no estudo...
Mas só se faz capaz se for bonita.
− ao passo que o "Soneto do tênis" (1600) é um dos muitos dedicados à proverbial podolatria glauquiana:
[...]
Seja em pano ou couro, usado,
ele fica tresandante
a chulé forte, cheirado
por um cego delirante.
[...]
Da biqueira ao calcanhar,
vou lambê-lo, até gozar
o mais lúbrico dos cheiros...
E dificilmente há releitor mais dedicado (e debochado) da tradição poética, tanto no que tange ao temário, como se percebe pelo soneto "Bocágico-Camônico" (133) −
Ó luz, ó forma, ó cor que te partiste,
tão cedo, te fazendo em mim ausente!
Repouso já não tenho, eternamente,
e vivo, rosto em terra, sempre triste.
E tu, que vês, e sobre mim subiste,
se ainda teu capricho assim consente,
não te esqueças da minha boca ardente
que sob o teu solado duro viste.
[...]
− quanto no que diz respeito à forma, caso dos dois sonetos "Téquinicos" (230 e 257; transcrevo um trecho do primeiro), nos quais aborda o problemático lugar do suarabácti na metrificação:
Reflete a inflexão do X no verso,
contada como sílaba. Assim quis.
Portanto, o som dum "ex" vale "equis"
no ritmo brasileiro em que converso.
Da mesma forma, é "rítimo adiverso",
mas nunca "rimo averso" que se diz.
Se for no meio termo, como fiz,
às vezes um "submerso" é "subimerso".
[...]
Ainda que se possa compreender o fato de a poesia glauquiana limitar-se a um círculo estreito de leitores, é inadmissível que apenas uns parcos críticos e raros resenhistas tratem, vez por outra, dos seus livros. Se cabe à crítica questionar preconceitos e lugares-comuns, revelando o que aos olhos do vulgo confunde-se com o trivial, a obra de Glauco Mattoso, irredutível a rótulos, deveria receber uma atenção muito maior do que a que lhe vem sendo dispensada. Não repitamos as lamentáveis lições da história; que nós, seus contemporâneos, ousemos reconhecer em Glauco, desde já, um clássico clandestino. A não ser que estejamos dispostos a ser como os que tantas vezes condenamos: aqueles que, servindo a mesquinhos moralismos, negaram o lugar merecido ao talento com o qual conviveram.